Não tínhamos carnavais

Nenhuma lembrança específica de como eram nossos carnavais. Eles meio que não existiam. O que existia era um grande feriado, onde fazíamos questão de varar a noite assistindo os desfiles de escolas de samba. Comíamos churrasco, dançávamos no meio da sala. Eu era tímida, mas você me fazia rir. Barbeava metade do rosto e deixava a outra metade barbuda e vinha para o meio da sala mostrar o modelito. Ríamos muito. Eu, meu irmão e minhas primas. Todos crianças.

Quem sabe, em outras casas, não fosse natural ter música ao vivo. Aqui, era esse o nosso cotidiano de feriados e fins de semana. Você montava o som, o teclado, os microfones e passava o dia tocando e cantando. Você me ensinou a gostar de fazer música… Eu tenho orgulho de ter me saído a você.

Não tínhamos carnavais. Tínhamos momentos de continuarmos juntos, em família. Após a tua ida, não tinha mais graça ficar em casa no carnaval. Em alguns, viajamos, em outros, eu trabalhei. Saí três anos seguidos seguindo uma orquestra de frevo. A cada dois pulos, um flash. Nem lembro o quanto foi cansativo porque a alegria da experiência é bem mais marcante. Sabe o que foi difícil? Saber como voltar pra casa tarde da noite. Medo de contratar um carro com motorista desconhecido. Medo de voltar de ônibus. Medo que meus amigos não pudessem me ajudar com isso. Eu lembrava, sempre, que, antes, em qualquer lugar que eu estivesse, se eu estivesse precisando, tinha você pra me buscar. Era estranho não poder pegar o celular e te ligar.

É… nenhum carnaval foi o mesmo sem você, meu pai.

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