Se eu decidir acreditar #3 – A reviravolta

Luna sabia que precisava dar o primeiro passo. Durante tantos anos, compreendia o quanto isso poderia ser difícil para alguém que se acostumou com as dificuldades. Às vezes, quem se acostuma com o ruim não sabe reconhecer o que é bom. Tudo o que a guiava, no momento, era uma intensa vontade de conseguir se sustentar, financeiramente, por vocação (e não, apenas, por profissão). Para pessoas como ela, não havia sentido esperar para ser feliz. A felicidade é o sentimento de plantar no jardim onde se quer florescer. Dinheiro nenhum consegue pagar a satisfação do verdadeiro eu.

Uma vez, Luna pegou um livro emprestado por indicação de sua amiga, Júlia.

– Amiga, eu juro pra você: esse livro mudou a minha vida. Leia que você vai gostar. – disse Júlia.

Luna fez inúmeras descobertas por entre os ensinamentos de Dinesh Hari, um escritor budista indiano. A cada vez que lia mais uma página, abria a boca em tom de surpresa e fazia uma cara de pamonha como quem olha pra o nada dizendo:

– Isso é tão lógico, tão óbvio, tão simples, mas ninguém me ensinou.

Apesar da terapia e do livro, Luna foi entendendo que o mais intrigante dos aprendizados da vida era que a cabeça não podia entender sozinha. Para que uma mudança ocorra, o combustível modificador é o sentimento. Essa era a explicação pela qual Luna, uma moça tão inteligente, tão batalhadora, sabia de tantas coisas mas parecia não sair do lugar: ela não sentia estar em outro lugar. Lutava, lutava, lutava mas se sentia só, se sentia triste. Lutava, lutava, lutava. Muitas vezes desesperançosa sem aceitar a própria realidade.

Sempre que relia aquele livro de autoajuda do guru Dinesh Hari, Luna relembrava que tudo o que estava vivendo era resultado de escolhas que fez no passado, ou de coisas atraídas por sentimentos nascidos de pensamentos que não foram cuidados.

Naquela tarde, ela quis conhecer um restaurante famoso em Rukam. Aproveitou suas duas horas de almoço do trabalho e foi. Ao chegar lá, pediu seu prato e ficou sozinha aguardando, na mesa. Passados uns dois minutos, ouve testes de passagem de som. O restaurante estava a inaugurar um projeto que contemplaria pequenos grupos com apresentações diárias cujos horários variavam a depender dos dias da semana. Naquela quarta, aconteceria no horário do almoço. Antes de iniciar, a proprietária do local pega o microfone.

– E aí galera! Tudo certo? Olha só, a gente tá adorando receber esses artistas bonitos, aqui no Rukan’s Bar. O projeto está dando tão certo que a gente conseguiu patrocínio pra financiar o primeiro Festival de Música Autoral da nossa cidade!

(aplausos)

Luna quase engasga com as batatas fritas enquanto a mulher falava.

– Então, vê só: a gente publicou todo o regulamento para as inscrições lá no site do restaurante e gostaríamos de pedir o apoio de vocês nessa divulgação. Se você tem um amigo ou amiga que gosta de música e compõe as próprias canções, convida eles pra preencherem os dados no site com o envio da música em MP3, beleza? Outra coisa mega importante é que até o dia do festival, o grupo precisa vir se apresentar aqui, semanalmente, pra que a galera tenha oportunidade de conhecer a música e cantar junto. A gente vai ter um corpo de jurados e as votações do público online, por isso é muito importante preparar o seu pocket show e trazer pra cá, valeu? Qualquer coisa, a Gisele, nossa assistente, tá aqui pra tirar as dúvidas de vocês. Valeu, gente! Fiquem com a apresentação da galera do Tony Jazz.

– Passa a bolsa.

Luna sentiu algo pontudo em sua cintura e gelou ao ouvir aquela frase. Sua cabeça deu três voltas até que ela se virasse pra ver se era verdade. Não era, felizmente. Era Júlia pregando peça de mal gosto. Luna teve um ataque de tosse com o susto. Todo mundo ficou olhando e até o Tony deu uma parada no show pra perguntar no microfone se estava tudo bem.

– Tá tudo bem, gente! A minha amiga se engasgou mas passou, tá? – diz Júlia, completamente gaisa, com sorrisinho amarelo no rosto.

Luna se recompõe pra falar.

– Júlia, peste, que susto da moléstia foi esse que tu me deu, hein? E que mico, fia, todo mundo ficou olhando…

– Sorry, miga, eu só tava brincando. Acalmados os ânimos, até que foi engraçado, diz Júlia rindo.

– Desculpada, responde Luna com cara de enfezada.

– O que tava rolando antes de eu chegar?

– Então, a dona do bar vai promover um Festival de Música Autoral aí… parece que conseguiu patrocínio e vai ser coisa grande, vai dar oportunidade aos compositores de Rukam.

Júlia arregala os olhos, animada.

– Amiiiiigaaaaaa, tua chance. Vamos inscrever alguma das suas músicas!

Luna não se anima.

– Eu não tô pronta pra isso, Júlia. Tenho algumas músicas que nem harmonizei, nem escrevi partitura, nem registrei e só isso vai me dar um trabalhão por falta de prática, sabe? Eu demoraria anos pra deixar tudo pronto. Fora isso, teria que encontrar amizades musicais que comprassem a ideia, tempo pra ensaiar, arranjo pra montar. Ih amiga, não há tempo hábil pra isso.

Júlia ouve com atenção e acena a cabeça dizendo sim, aguardando o seu momento de falar.

– Ô Luna, me diz uma coisa, amiga: por quanto tempo mais você vai se sabotar?

Luna arregala os olhos de susto. Ela esperava que Júlia concordasse com o que disse e mudasse de assunto mas não foi o que aconteceu. Júlia continua.

– É sério, Luna, você tem tantos anos de estudo, é tão aplicada, canta bem, só falta se dar de presente um pouco mais de confiança em si mesma, amiga… Eu conheço suas músicas e já me imagino ouvindo elas na rádio, sabia? Amiga, se dê uma chance! A oportunidade está bem aqui na tua cara. Se você ganha esse prêmio…

Luna interrompe a amiga.

– Júlia, calma, amiga, eu já tô em pânico só de pensar na possibilidade de me inscrever. Daí a ganhar é chão, viu? Eu sou inexperiente, amiga, você sabe, eu sou uma economista…

Júlia interrompe Luna com mais uma brincadeira, falando ironicamente.

– Você é uma economista, tá na metade do curso, não pode desistir, precisa de grana pra se sustentar, e seu pai, e seu irmão… ai, Cristo! Onde que liga o botão do otimismo nessa menina? Cadê?

Luna sai pela tangente.

– Rapidinho, eu vou ao banheiro.

No caminho ao banheiro feminino, Luna escorrega num guardanapo sujo que caiu no chão e quase cai de bunda no chão. Sorte que Tony estava arrumando seu material enquanto a banda fazia um momento de improviso instrumental no palco e, num reflexo, segura Luna a tempo. Sem jeito, morrendo de vergonha, ela agradece e segue para o banheiro. É o tempo que Júlia avista seu colega do tempo da escola. Acena para Tony que se aproxima de sua mesa.

– Eu tava tão entretida na conversa, aqui, com minha amiga que nem te vi! E aí, que sonzasso, hein?

– E aí Julinha, beleza? A galera é do bem, tamo aí apostando nesse repertório novo, caindo na estrada…

– Tu vai participar do festival?

– Vamo sim, vai ser massa.

– Eu tava, aqui, tentando convencer a Luna a participar. Ela tem umas músicas tão bonitas que só vendo, Tony.

– Massa, massa, mas ela não quer participar, não?

– Eu acho que quer mas a bronca é que ela tá preocupada com o tempo pra registrar as canções, arrumar gente pra ensaiar, essas coisas. A Luna é muito planejada, sabe?

– Mas eu acho que dá tempo, pow, pra resolver tudo isso aí.

– É… talvez ela precise de um empurrãozinho. Tô fazendo a minha parte, diz Júlia sorrindo.

Tony retira o seu cartão do bolso.

– Olha só, eu tenho que voltar pra o palco porque o improviso dos caras tá acabando e eu vou cantar a próxima mas fica com meu cartão pra a sua amiga. Se ela precisar de ajuda com essas coisas a gente pode conversar, beleza? Beijo pra tu!

Tony retorna ao palco pelo mesmo corredor por onde Luna está voltando, ainda cheia de vergonha pela quase queda. Os dois se cumprimentam e Luna volta pra a mesa. Júlia não se contém de animação.

– Você tem duas horas de almoço, dá pra juntar o povo e vir tocar aqui. Os ensaios podem rolar nos fins de semana lá em casa. As harmonias e arranjos, você tira as dúvidas com o Tony que tem mil anos de estrada. Tá resolvida a tua vida, vâmo se inscrever nesse negócio!

Luna faz cara de confusa.

– Que povo, Júlia? Que ensaios? Amiga, eu acho muito difícil começar esses malabarismos do nada. Eu preciso de mais tempo para me preparar. Quem sabe na segunda edição do festival?

– Você que sabe mas quem te garante que haverá uma segunda edição? Amiga, o Tony disse que podia te ajudar, ele é super gente boa, se vocês se conhecessem tenho certeza que ia dar certo.

– Tony?

– Oxe, nunca te falei dele, né? A gente estudou junto na quarta série, na época em que, ainda, se chamava quarta série. Tony tem família de músicos, estudou pra isso a vida toda. Agora tá aí com o projeto de jazz dele.

– Ah, massa, diz Luna se sentindo interessada.

– Olha, eu comentei com ele, rapidamente, sobre a tua situação e, antes de voltar pra o palco, ele me pediu pra te repassar o contato dele pra vocês conversarem.

Júlia entrega o cartão de Tony a Luna. Luna fica sem jeito.

– Ai amiga, como é que eu vou falar de umas coisinhas simples que eu faço em casa pra um cara, completamente, monstro no assunto? Eu nem conheço ele! Não me sinto bem, entende?

– Luna, deixe de pantim, pelamor. Fale com ele! Eu te ajudo amiga… mas anda em direção ao teu sonho.

– Preciso voltar pra a empresa. A gente se fala depois, tá?, diz Luna já se levantando da mesa.

Luna está se sentindo insegura sobre participar de um festival por não ter experiência de palco e, também, por não ter os direitos autorais de suas músicas protegidos. O que você acha que vai acontecer?

Leia os outros capítulos desta história, aqui.
Você pode continuar esta história, aqui, nos comentários e acompanhar o desenrolar dos fatos na categoria Pitaque, se quiser. Você vai ver seus pitacos na história. Quem nunca quis criar o rumo de uma novela? Comenta aí!

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