Na luz e no resgate do sambão que nunca morre

É um som bem acabado, arranjos bem produzidos dando uma cara mais atual a clássicos incansáveis de se ouvir. Primeiro, ficamos atentos a isso. Depois, uma voz aveludada que já conhecemos do Pop e da MPB, com-ple-ta-men-te, confortável no samba. E uma bela surpresa em parte considerável das nove faixas: agudos seguros e encorpados. Som de qualidade, sabe? Ela chega lá e “pá”: manda o recado do jeito que tem que ser.

Ao falarmos “do jeito que tem que ser” podemos nos referir, também, à intencionalidade da interpretação. Quando você começar a prestar a atenção na mensagem que uma música cantada diz transpondo as sensações da melodia e do ritmo e alcançando significado nas emoções traduzidas ali, grave o nome do intérprete (sim, porque é esse o nome do profissional/artista que leva este significado até você). E ela tem isso. Ela é uma danada. Surpreendente. Talentosa. Dona do palco, dona do discurso. Já viu ela cantando ao vivo? Nenhuma de suas performances nega seu estudo e seus mais de trinta anos de vivência com a arte e a Música.

Precisamos falar de Na luz do samba, um CD da cantora Luciana Mello que foi lançado em 2016 em homenagem ao seu pai, Jair Rodrigues que, segundo ela, passou muito tempo insistindo para que a filha gravasse um disco só de “sambões”. Pronto, não precisamos de mais nenhum motivo para nos emocionar, apesar de o trabalho ser, extremamente, alegre e viciante. Para entrar na atmosfera de um CD, é preciso chegar à terceira escuta e ir além dela.

Luciana, que também é compositora, fez a escolha de ser somente intérprete neste CD e escolheu tão assertivamente! Reuniu um time de peso nas regravações incluindo nomes como Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho e Jair Rodrigues. Ah, o Jairzinho! Não é difícil se encantar com a delicadeza e a sensibilidade das músicas dele. A faixa de abertura do álbum, mesmo, Estrela sorridente, foi feita para o pai. É bonito sentir o contágio dos sentimentos dele ao ouvir a música. Tão leve e tão linda quanto o amor de um filho que admira um pai. Mas, ainda, não é esta a faixa que fica grudada nas sensações. Há quatro que podemos destacar. Duas delas falam de empoderamento feminino: Brasileira guerreira e Na correria. São discursos de mulheres que lutam por seus objetivos mesmo diante das dificuldades com uma lúcida consciência do seu papel e do que representam, especialmente, para si. Um embalo maravilhoso de autoestima e amor próprio. Já Clementina é uma homenagem a uma grande mulher. Tem um agudão poderoso que a Luciana dá, nessa música, sem piedade. Coisa linda de se ouvir! Sabe quando você fica pensando: quero ver se ela consegue, agora, aí a pessoa vai e consegue pisando sem sacrifício? É, mesmo, assim. E Roda de Baiana traz a participação de Nina Levy, a filha de Luciana que, na época, tinha seis anos de idade. Dá pra lembrar de leve que a música é super alto astral, faz umas referências à escola de samba Mangueira e tal mas o que fica mesmo tocando no juízo é a vozinha da Nina, gente! Que coisa mais fofa de linda e afinada! E quando a Luciana diz: muito obrigada, minha filha, no final da gravação, dá uma vontade de chorar. Sabemos que a Luciana é filha e irmã de dois talentosíssimos músicos, assim como ela, também, é. Nina é a terceira geração desse talento todo. É emocionante, sim.

O disco, ainda, tem a participação de outro ícone da Música Popular Brasileira: a Marrom (a mestra Alcione, diva, poderosa, abriu a boca sai voz pra dar e vender). Um trabalho refinado, bem produzido, bem feito na melhor das redundâncias. Dá vontade de ouvir por mais umas três vezes sem cansar, ou por mais umas dez até cantar tudo junto. Uma boa pedida pra quem gosta de samba, pra quem reuniu as amizades pro churrasco, pro almoço, pra papear e se divertir. Vale a pena ouvir, sim.


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