A invasão

Ele a olhava com o olhar de quem quer. Olhava ela com as suas primas. Em determinado momento, tomou coragem e se levantou:

– Vem cá – disse ele.

Ele a levou, pela mão, para um beco. Sentou-se e ela permaneceu de pé. Pôs a mão direita em seu ombro e respirou fundo. Depois, arriou seu short, sua calcinha e acoplou sua boca à vagina dela. Enfiou a língua. Lambuzou tudo o que pôde, o quanto pôde. Saciou sua vontade. Em seguida, a vestiu e a vida continuou para ambos.

Os encontros no beco foram se tornando sistemáticos. Após a vagina, ele, agora, avançava para os seios, para a boca. Dizia:

– Peito, boca… – enquanto chupava todo o corpo dela, de maneira sistemática.

Naquele dia, quase ocorreu um flagra. Ele se abaixou um pouco mais, a agarrou pelos braços e disse:

– Não é pra contar pra ninguém, está escutando? ESTÁ ESCUTANDO? – disse, elevando o volume da voz.

Ele tinha vinte e um anos. Ela tinha cinco. Ele é primo de segundo grau dela. Cometeu pedofilia dentro da casa dela, escondido, enquanto os adultos responsáveis por ela estavam nos afazeres cotidianos, sem fazer ideia de que, no mesmo ambiente, sua filha, sua neta, sua sobrinha estava sendo molestada por um criminoso.

Ela cresceu mas não saía de casa. Ela se trancava no quarto quando ele aparecia. Ela cresceu e descobriu, nas aulas de educação sexual da escola, o que era aquilo, que aquilo era errado. Ela não escolheu. Ela não quis. Aos nove anos, ela joga uma pilha de livros, na última tentativa de estupro, na cara dele, e ameaça contar para Deus e o mundo. Mas ela não conseguia contar… Estava do outro lado da estatística. Ela se sentia suja, impotente, indefesa, culpada, invadida contra a sua vontade. Ela sentia vergonha, se sentia manchada, sem condições de amar. Ela não aceitava. Ela não sabia… Ela não tinha seios. Não tinha pêlos. Não era, ainda, uma mulher.

Na adolescência, ela sonhava com um príncipe encantado num cavalo branco. No início da vida adulta, com alguém que a pudesse salvar de memórias tão traumáticas. Mas ela não conseguia se entregar, se aprofundar em nenhum relacionamento. Ela sofreu muito mais do que poderia imaginar. Acordava, em todas as madrugadas, por meses seguidos, com a respiração ofegante, assustada. Acordava com as lembranças ruins, com a sensação daquela língua em sua vagina. Ela se colocava em posição fetal e tapava a vagina com as mãos. Ela queria ter se defendido, se pudesse… Ela queria que alguém a tivesse defendido.

Ela chorava, chorava, chorava enquanto desejava esquecer as memórias. Chorava, chorava, chorava enquanto não sabia se contaria tudo para a sua mãe, depois de tanto tempo. Ela sentia raiva de si. Ela não teve condições de se proteger mas queria ter se protegido. Ela teve a vida roubada. Não aguentou e contou. Pense num choro compartilhado em dor, em mágoa, em raiva, em sofrimento. A mãe, mesmo sem saber de nada, sentia culpa.

– Eu teria lhe defendido, eu teria tomado providências, eu não teria deixado impune. – disse enquanto a abraçava chorando.

Pensou em fazer uma denúncia. Pensou e despensou diversas vezes. Não sabia se iria aliviar ou sofrer muito mais durante o processo de depoimentos, pesquisa de provas, encará-lo por mais uma vez. Sua vida foi roubada. Ela não sabe o que fazer. Mas pensa nisso, até hoje, depois de mais de vinte anos.

Pedofilia é crime. Denuncie.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s