Não é errado querer amar, errado é insistir em quem não te ama

Texto escrito em 23 de novembro de 2016. Quem sabe, ainda, atual.

Olá, senhoras. Olá, senhores. Olá, LGBT’s do meu coração. O post de hoje é sobre amor próprio, auto valorização e autoestima. Vamos falar de como é se sentir um lixo para uma pessoa (ou, até, pior, para si). Vamos falar da arte de ter recaídas. Vamos falar de se contentar com menos, muito menos do que, realmente, merecemos ganhar de alguém. Vamos falar de culpa, de remorso, de raiva de si com direito a vontade de se estapear. Não saia daí! Não mude de janela! O post de hoje está incrível! Vamos falar da arte de não se bastar e sentir a necessidade de dividir suas angústias com várias pessoas sem abertura de possibilidade de ouvir a qualquer uma delas porque, na verdade, você só consegue escutar esse barulho ensurdecedor mexendo as cadeiras dentro de você. Vamos, sim, falar da arte de se expor. Vamos falar de como se sentir no dia seguinte ao mar turbulento se agitar por conta da fraqueza e do sentimento que, por vezes, nos ajudam a escolher ser menos inteligentes. Vamos falar do dom de receber energias negativas e de permitir que suguem a sua energia boa. O mais novo post do Fuá de Clara começa, agora.

Queridos leitores, dividiremos este texto em três blocos, três situações que podem acontecer comigo ou com você, relacionadas a uma enxurrada de sensações e sentimentos que estão ligados a uma única raiz: a raiz da autoestima (de onde provém as ramificações da autoconfiança, autovalorização e amor próprio citados, anteriormente). Pode ser que subdividamos este post em três, caso fique cansativo, apesar de produtivo.

Pois bem, vamos chamar nossa situação número um, carinhosamente, de A recaída que vem depois que eu já descobri que agi como besta. Antes que você se sinta meio mal e com vontade de se enforcar, provocando a sua morte, sentindo raiva de si, deixa eu te dizer uma verdade: esta recaída é muito comum em pessoas corajosas que se permitem acessar, pelas primeiras vezes, na vida, uma base gigantesca de dados compostos por sentimentos. Geralmente, pessoas, verdadeiramente, humanas e admiráveis sofrem dessa situação número um. Eu estou aqui para lhe dizer que NÃO é errado perdoar. NÃO é errado querer retomar uma amizade ou um relacionamento. NÃO é errado amar alguém. Contudo, nas primeiras experiências de se render a um sentimento e se permitir acessar suas fragilidades podemos bambear como uma criança que está aprendendo a andar (a pé ou de bicicleta), como um adolescente que, ainda, não sabe onde colocar a língua na hora do beijo, como um adulto que está sendo jogado, pela primeira vez, no mercado de trabalho.

Assim como, quando crianças e adolescentes, estamos em constantes aprendizados e superações, quedas e levantes, no momento em que nos deparamos adultos em uma cultura onde ter sentimentos é exceção e não regra, é mais do que natural dar umas bambeadas, umas quedinhas, uns tropeços até conseguir andar com fé (cada um do seu jeito). Os erros, nesta situação número um, nos servem para aperfeiçoar o caminho. Portanto, seria um EQUÍVOCO querer deixar de amar por conta de uma recaída. O amor é o caminho e não o erro.

Agora, vamos analisar possíveis descompassos dentro do caminho. Muitas vezes, enxergamos alguns fatores que não nos fazem bem numa pessoa que amamos. Em determinado momento (geralmente, após umas sofridas básicas) cai-se a primeira ficha e descobrimos que não temos, a princípio, como ajudar essa pessoa porque não foi desenvolvido nela, ainda, o elemento essencial de qualquer mudança que é o querer mudar. Geralmente, as pessoas que não costumam trazer elementos do seu inconsciente para o consciente sofrem disso, frequentemente.

São pessoas que costumam muito mais estar preocupadas com a sua imagem perante as pessoas do que com os próprios sentimentos (quanto mais os sentimentos de outrém) que transcendem qualquer coisa. Essas pessoas entendem tudo o que ouvem como cobrança ou crítica destrutiva e se sentem vitimizadas criando clima chato, ou seja, elas revertem a situação e tentam fazer você (que fez uma brincadeira inocente ou que tentou falar alguma coisa com a intenção de ajudá-la) sentir culpa. Na maioria das vezes, elas conseguem. São pessoas que não desenvolveram o dom de escutar e, principalmente, de refletir sobre o que ouvem. No instante em que você acorda e percebe que ajuda muito mais ficando em silêncio do que manifestando sua opinião, é doloroso. De repente, você não se sente mais à vontade para ser você. Você fica no fogo cruzado entre amar alguém que, no entanto, não te faz bem ou ir embora sentindo a dor da falta. Agora, você sabe que ninguém muda ninguém.

Muito bem, você já sabe de tudo isso. Você tem maturidade o suficiente para não entrar em joguinhos sem futuro como o de querer se vingar e o de ficar sem falar. Há uma informação importante em não querer devolver na mesma moeda ou não seguir impulsos negativos motivados pela sua ferida: isso não vai te curar, não vai te ajudar a seguir em frente, não vai diminuir a sua dor. Pelo contrário, alimentar sentimentos e pensamentos ruins só podem te estagnar. Você não quer isso, não é, bem? Leia isto e guarde para todo o sempre: somente o amor cura, quebra e liberta. Difícil aceitar? Impactante? Respirou fundo três vezes pra não querer me bater? Essa é a verdade que eu aprendi, vivi e vivo, embora cambaleando, também. Como é difícil, eu sei, engolir aquela dor agoniante a seco e não fazer mais nada além de tentar seguir em frente! Não é só isso. Como é difícil (como sei!) desejar o melhor para aquela pessoa e enviar, em silêncio, as boas vibrações para ela, apesar de todo o sangue que jorrou daquele corte em carne viva onde um vento basta pra fazer doer de novo! Como é duro amar mas saber que estar próximo demais é suicídio de autoestima, é permissão para desrespeito, desvalorização! É dor na alma!

Para um primeiro momento de reação à dor querendo se cuidar, a casadinha proteção/amor é o que vai te libertar desse passado que você não quer mais, mesmo que as vozes furiosas da sua baixa autoestima digam o contrário. Você aprende a deixar aquela pessoa em um círculo de contatos mais distante. Você amadurece aprendendo a falar, normalmente, se você ver. Você sabe que quem cuida da sua dor é você, quem te feriu não precisa saber do que você está passando. Você toma sua parcela de responsabilidade pelas suas escolhas debaixo do braço e vai. E dói. E vai. E dói. E vai. E vai doendo menos. E continua indo. E quase, já, nem dói. E continua indo.

A fase do quase já nem dói é a mais crítica. Você está quase nem se importando mais. A dor já não dói por um tempinho. Você vê a pessoa, ela não quer falar, mas você nem liga. Tá tudo bem. Você está conseguindo preencher aquele buraco que ficou daquela ruptura. Está preenchendo-o com algo valioso: você. Mas aí a pessoa que você ama e que te feriu e que nunca te ouve, nunca presta a atenção no que você sente e nem se preocupa com isso percebeu que você não vai se render àqueles padrões de comportamentos antigos: você não vai ligar, não vai mandar mensagem, não vai propor conversa, não vai brigar, não vai chamar a atenção. Você fez nada e pretende continuar assim. Ao perceber isso, essa pessoa vai lá e fala com você. “Oi, tudo bem? Você sumiu… nunca mais te vi…” Você faz uma cara de pamonha, compreende a infantilidade daquela postura, mas fala, normalmente, e segue em frente, sem muito contato, sem conversar demais.

No dia seguinte, segue o jogo. A pessoa vem de novo. Puxa uma conversa mais demorada. Seus amigos estão te chamando mas você decide ficar mais um pouquinho com aquela pessoa sem coração porque… por que, mesmo? Eis a pergunta: POR QUÊ? Até que ele interpela uma de suas melhores amigas, segurando-a pelos dois braços, olhando nos olhos dela e, escanteando a conversa que havia iniciado contigo, percebendo que você já estava no papo ao balançar de uma única asinha e pouco se lixando para a sua nobre presença ali, a intima para ir assisti-lo em uma apresentação. Você disfarça, olha no celular. Até que ele vira e te diz o seguinte: “Você, não preciso nem dizer, né?” Claaaaro que não precisa! Afinal de contas, você está sempre ali disponível e atrás dele, não é?

Você se irrita e, brincando, reclama, acha interessante ele intimar uma de suas melhores amigas, na sua frente, daquele jeito. Manda ele se lascar. Vamos brincar pra sair daquilo, né gente? Vamos ficar à vontade como se estivéssemos voltado às boas. Eu sei que foi inocente de sua parte, sei que dali você partiria e a proximidade, aos poucos, voltaria. Mas ele não gosta de ver você mandando ele se lascar na frente dos outros, mesmo se vocês se conhecem há aaaanooosss, mesmo se existe intimidade pra isso, não é? Mas essa intimidade tem que ser escondida. Desde quando ele assumiu sentimento por você, mesmo? Desde quando ele se importa com o que você sente diante desses joguinhos infantis? Desde quando ele foi capaz de se colocar no seu lugar? A doida é tu, porra. A pessoa que explode, se expande, demonstra, age como pessoa que sente e que transborda, às vezes. Na verdade, o ser humano é você, meu amor. Essa pessoa é um monte de programações inconscientes.

Eu sei o que você sentiu depois que ouvir aquele não gostei no ouvido esquerdo. Eu sei que veio forte aquela sensação de ter tido uma recaída, de ter pensado em ceder por mais uma vez, de voltar com a relação SEM que ele tivesse sugerido isso. Veio, ainda, a culpa. Verdade, você fez uma brincadeira íntima, vocês não são mais íntimos, foi na frente das pessoas. Ele tem os motivos dele. Eita, porra. Você pede desculpas, você vê ele inflando o ego. Há pessoas, como você, que pedem desculpas porque valorizam suas relações. Há pessoas, como ele, que aceitam desculpas para confirmar que estão certos e o outro está errado. Para pessoas assim, ouvir um pedido de desculpas é um alívio porque eles não suportam sair de seu quadrado perfeccionista. Eles não conseguem encarar a si, diante de um erro. Eles não sabem se perdoar.

Essa é a situação número um. Você volta a se sentir uma merda depois de quase ter saído dela. Você se decepciona de novo, age como idiota de novo, entrega seus sentimentos de novo, se afoga nas águas rasas da desilusão. Usei uma situação hipotética super simples pra ilustrar o estrago. Eu sei que tem gente que enfrenta rojões maiores. Sabe qual foi teu maior engano? Ter insistido em depositar teus tesouros na pessoa que não iria saber reconhecê-los. Não é errado querer amar. É errado não amar a si e, ainda, insistir em amar alguém que você já sabe que não te enxerga.

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