Os verdadeiros espertos é que são raros

Texto escrito em 2014. Quem sabe, ainda, atual.

As pessoas vivem dizendo, com ar de sabedoria, que não se deve levar a sério qualquer tipo de relação. Nos dias de hoje, maturidade é proteger os sentimentos com várias cascas de jogos. As pessoas jogam. Ter os pés no chão é enxergar a realidade, exatamente, do jeito que ela é: “homem trai, meu velho, e não pense que as mulheres estão longe disso”, “na realidade, hoje em dia, tudo está muito fácil”, “ai, meu Deus, não seja romântico, as pessoas são livres e podem ficar com quem bem entenderem”. Percebo que qualquer nuance que demonstre o mínimo de sentimento precisa ser escondida: você não será aceito, com facilidade, nos grupos, se não concordar com a ideia de que o amor não existe porque acreditar num relacionamento sério, duradouro e com amor é viver no mundo da fantasia ou ser discriminado como um boboca, abestalhado, abigobal, tabacudo, pra ser mais preciso.

Ter experiência é saber que, no fundo, não existe sentimento que leve à fidelidade ou à vontade de construir uma vida a dois. Não existe amor a dois. Isso fica no campo etéreo da raridade. Vejo muitos homens bonitos, inteligentes, apaixonados por seus ofícios, lutadores por uma sociedade mais justa e casados ou noivos ou namorando agarrando pela cintura e olhando dos pés a cabeça qualquer amiga que passe por eles. Claro, quando suas mulheres não estão por perto. Homens admiráveis até o momento em que demonstram, sutilmente, que estão inseridos na sociedade da sacanagem. Vejo muitas mulheres lindas, com corpos esculturais, inteligentes ou não, sendo o alvo de qualquer um – casado ou não – ao qual levante o dedinho com o gesto de “venha”.

Então, viver bem significa não levar nada, absolutamente, nada a sério. Vamos beijar na boca, trocar salivas, roçar, sentir o cheiro real de nossos corpos colados, fundir nossos órgãos genitais, sentir prazer, prazer, prazer e fingir que nada daquilo mexeu com a gente, que a gente só se gosta ou se curte, no máximo. Vamos ver se, assim, ele ou ela sente vontade de ficar junto, novamente, e vamos vendo no que vai dar. Na maioria das vezes, dá em nada, depois de algum tempo. Um ano, quem sabe. Ou dá: quando acaba, a mulher sente um buraco no meio do corpo, no meio do peito. Não, ela não está apaixonada pelo cara ao qual entregou seu corpo inteiro sem qualquer tipo de pudor ou limite, ela só havia se acostumado com os encontros sistemáticos e frequentes, só se acostumou com o cheiro do suor dele e o seu peso em cima de si, seu hálito, seus beijos, seu olhar, suas brincadeiras, suas gargalhadas. Mas, o que será que ele pensa? Como será, mesmo, a vida dele? Como seriam as pessoas que ele mais ama? Imagina, se essas perguntas passariam pela cabeça dela… Acabou. A fila anda.

O homem nem sabe porque se afastou daquela mulher. Vai ver, ela encheu o saco, ele perdeu a vontade. Vai ver ele nem consegue entender que, em alguma instância, pode ter sentido o campo da fragilidade sentimental se aproximando com alguma conversa boba, alguma cobrança disfarçada de riso. Tenho a impressão que a maioria dos homens se afasta quando se sente desprezado ou quando não se sente suficiente para aquela mulher. Mas os sentimentos dos homens são, mesmo, ocultos pra quem quer que seja. O que sei é que eles se afastam. Acho que nem sabem direito porque se afastam. E, de repente, uma relação que era tão íntima, vira um nada, como se ninguém se conhecesse ou como se fossem inimigos de longa data.

Posso estar enganada mas acredito que a sociedade de 2014 pode estar caindo no grave erro de mentir para si. Ser 100% sincero com seus desejos e sonhos dá trabalho. Eu acho que mulheres e homens querem, sim, amar, mas camuflam essa vontade porque, no fundo, bem lá no fundo do inconsciente, escondidinho, vive um medo de nunca encontrar sua tampa da panela. Na cabeça deles, estão só se permitindo com relações baratas ou dadas como se não houvesse outra forma de ser feliz: a forma que corresponde a ser 100% verdadeiro consigo.

Fico me perguntando se existe ou existirá lugar para os corajosos: aqueles que admitem para o próprio coração que tapar esse buraco no peito significa ter amor próprio, ter respeito pelo próximo e ter a certeza concreta de que querer fazer sexo com quem se ama ou se aposta amar e ter as duas coisas, no cotidiano, não é ter vida de tabacudo. Ser esperto é ser você. Por quantas e quantas vezes esses homens ou essas mulheres se contentarão com uma dança do acasalamento atrás da outra sem nunca se aprofundar, de verdade, no que o outro está trazendo para a sua vida em energia, em aprendizado, em bem estar? Será, mesmo, que eles pensam que entender o outro – casado ou não, gostoso ou não, esperto ou não – como um ser integral, que tem um corpo lindo mas também coração, que sabe fazer direitinho mas que tem pensamentos, sonhos, vida, família – é agir como um tabacudo? E se for, o que me resta afirmar é: nos dias de hoje, os verdadeiros espertos é que são raros.

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