Tá tudo bem

Paulista, 17 de abril de 2018

Querido Deus,

Lembro-me bem de ver meu priminho de seis anos de idade brincando de cortar e empilhar papéis, em cima de uma mesa que há no quintal da minha casa, achando que era um ajudante Seu. Ele inventou que o Senhor o havia pedido para produzir bolsas para uma grande festa no céu. Vez ou outra, ouço, sempre, ele falando de Ti com a maior naturalidade, como se pudesse, constantemente, se comunicar. Recorre-me, agora, que o nome disso é intimidade. Passo a perguntar-me como vai a minha intimidade Contigo diante de tudo o que estou passando, neste momento.

O que sei é que tento ser forte e, por vezes, saio de mim. Ao voltar, não sei dizer por onde estive, durante tanto tempo. O sofrimento é assim: vem de mansinho, vai desestruturando cada haste pregada com esforço até que toda a atenção é doada a segurar o que sobrou. Não conseguimos perceber que mudanças foram se instalando enquanto estávamos fora de nós. Não conseguimos ver quanto tempo passou entre o tempo em que estava tudo bem até o tempo em que muito se foi perdido.

Perder-se, já analisei, é sinal de que algo, ainda, não foi encontrado no interior. Algo não foi compreendido, aprendido, introjetado de maneira que nos torne uma pessoa melhor. Quem quer ser melhor não olha cada sofrimento que vem da mesma forma. Uma coisa é a cabeça que sabe de tudo isso de cor e salteado. Uma coisa é lembrar disso a cada vez que a roda gigante pega o impulso e volta a subir. Outra coisa é resistir, segurar a casa enquanto a onda passa e leva o que tem de levar, mesmo que doa. A gente fica sem garantias para acreditar, mas escolhe acreditar, mesmo assim, porque sei lá…

Dizer que amo a Ti no meio da dor, já experimentei, é uma sensação que me faz chorar descarregando todo o peso que venho acumulando, sem querer. Querer estar diante de Deus e não saber o que dizer, mas lembrar que escolheu seguir Seus passos, escolheu fazer o bem, querer o bem é, mesmo, libertador. Sinto como se o Senhor reforçasse cada pingo de amor que possa ter sobrevivido, depois de tantos sentimentos devastadores. Às vezes, a gente precisa parar… pra enxergar os outros pontos. Às vezes, a gente precisa começar a andar, se mexer, fazer ou escrever sem rumo para, no meio do caminho, lembrar do que é mais importante: querer o bem, querer se livrar do que não faz bem.

O mais importante é ter amor, dar amor, agradecer. A gente não precisa, mesmo, mostrar que a gente consegue pra ninguém. Ainda que tudo esteja desabando, se a gente sabe que sente amor e se permite seguir com ele, fica tudo bem. A gente chora e diz: tá tudo bem. Porque tá, mesmo.

Com amor,

Sua filha.

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