O dia em que eu conheci Colt Brothers

Querer empreender quando nada se tem de recurso é um grande desafio para o pobre brasileiro (ou brasileiro pobre) do século XXI. A vida, para quem não tem tantas oportunidades, pode ser difícil, pode ser dura. Mas eu sou daquelas que, também, é difícil com a vida. Enquanto a marca da mordida do mosquitinho da persistência e do sonho estiver cravada em minha alma, eu vou ser difícil com a vida. Quer me derrubar? Vou dar trabalho. Quer me fazer desistir? Vou dar trabalho. Quer me fazer parar? Vou dar trabalho.

Naquela tarde de sábado, eu só precisava do meu VEM Estudante para me locomover, de uma boa companhia e de muita força de vontade. Quem quer empreender e não tem dinheiro, amor, frequenta palestras e eventos gratuitos, não é verdade? Não nego que deu vontade de ficar na minha casa, mas eu quis mostrar pra a vida que não tenho postura de perdedora. Fomos lá, eu e minha amiga, para o outro lado da cidade (um lugar que desconhecíamos mas que podemos, aqui, apelidar de “puta que pariu” ou “fiofó do maior bairro da cidade”). Eu e minha amiga somos seres, profissionalmente e geralmente, comunicadores e espontâneos mas, naquela tarde, mais interessante seria se segurássemos o momento de honrar o cobrador do ônibus com nossas belas vozes sedutoras a direcionar uma dúvida e olhar o aplicativo de mapas do celular, afinal, isso é, extremamente, mais empolgante (só para constar, pedir informação ao cobrador não mudou o curso desta história. Continue a ler).

Nossa aventura começa descendo na parada de ônibus errada.
– Amiga, o ônibus parou num lugar diferente do que está mostrando, aqui, no aplicativo. Suspeito que vamos andar bastante -, diz a minha amiga muito calmamente.
– Certo, a gente se acha. Só preciso comprar alguma coisa pra comer. Eu não almocei -, digo eu sentindo a barriga roncar.
– Tem uma mercearia, logo ali, – diz a minha amiga – vamos logo, já estamos atrasadas.

Comprei um pacote enorme de salgadinho industrializado (bem maior que minha capacidade de comer), uma garrafinha de refrigerante e uma cocada cremosa (sabe aquelas crocantes por fora e cremosas por dentro? Amo!). Em seguida, pedimos informação à atendente do caixa. Certamente, ela saberia nos ajudar.
– Como é, mesmo, o nome do lugar para onde vocês querem ir? – diz ela (comecei a me desesperar, intimamente, sem demonstrar) – Ah, deve ser aqui atrás, perto do terminal de ônibus. Quer dizer, não sei direito, não me lembro, é que eu não conheço muito bem essas bandas… (faz cara de pensativa e olha para o além, leia-se além como o alto, o nada, o vento em movimento).

De repente, surge à porta da mercearia, o que parecia ser o nosso salvador da pátria: um senhor baixinho de chapéu, todo solícito a entrar no meio da conversa. Diante daquela lua cheia (leia-se o sol do meio dia sem nenhuma nuvem no céu) ele nos orientou, com toda a certeza deste mundo acomodada dentro dele, que fôssemos direto, eternamente direto, sem dobrar em lugar algum.
– Olhe, lá no final é o terminal do ônibus. Esse lugar fica bem pertinho, aí lá você pergunta -, disse o homem confiante.

Fomos, lindas e calmas, iniciar nossa jornada em busca do lugar da palestra enquanto eu comia os salgadinhos, sujava meus dedos, lambia-os e tomava o refrigerante (e vice-versa). Depois de muito andar, minha amiga percebeu algo estranho.
– Amiga, nós estamos nos afastando do lugar. Olha, aqui, no aplicativo.

“Fudeu”, pensei. Mas, antes de ir acrescentando, a este pensamento, outros tantos semelhantes como “puta merda, véi, e agora?”, eis que surge a segunda salvadora da pátria: uma mulher passando no meio da rua.
– A senhora sabe onde fica esse lugar, aqui? -, pergunto eu, torcendo, positivamente, e mostrando o endereço – o moço disse que fica perto do terminal de ônibus.
– Ah, é perto do terminal, é? Eu tô indo pra lá, bora?
Caminhamos mais algumas léguas debaixo daquele sol de Deserto do Saara até que chegamos em um canal e… E? Exatamente: e? Adivinha: a mulher não sabia mais para onde ficava o terminal e o aplicativo indicava o lugar como mais distante do ponto almejado (só que foram os olhos da minha amiga que trocaram as bolinhas do mapa. Estávamos no lugar certo, porém, levemente apavoradas). Esperamos a mulher telefonar para um grande amigo seu, morador do bairro, que, certamente, nos daria uma informação segura.
– Ele disse que não conhece, não, esse lugar aí -, disse ela.
– Sério? -, digo eu, triste – até que minha amiga diz a tal frase iluminada.
– É não, é não, estamos na direção correta, é pra lá -, diz ela apontando.

Após confirmarmos com as moças do bar perto do canal, seguimos a jornada a pé observando aquele lugar desconhecido. Finalmente, havíamos nos encontrado após algumas léguas aterrorizantes sem saber se estávamos perdidas. O sol continuava quente de lascar e eu estava acabando de tomar todo o refrigerante daquela garrafa quando, de repente encontramos (adivinha quem?) o moço baixinho de chapéu que nos havia ensinado o lugar errado.
– Oxente, vocês não foram por onde eu disse, não? -, pergunta ele.
– Nada, o lugar é logo ali – diz a minha amiga, pacientemente (porque se fosse eu podia ter-lhe causado intenso sofrimento físico, naquele momento).

A palestra foi meia boca, mas deu pra salvar algumas informações do que nos interessava. O sentimento de “eu fiz e não deixei para amanhã” estava presente. Ele me faz bem. Seguimos para a estação de metrô mais próxima para voltar para casa. Quando mais nada poderíamos esperar daquela tarde, eis que surgem eles: eles, minha gente, eles! Colt Brothers. Dois cabras lindos com um violão, um cajón, um caixinha de som e dois microfones se preparando para entrar no metrô. Tivemos a sorte de ficar no mesmo vagão que o deles.

Eles não eram mais uma dupla de músicos indo tocar em algum lugar, como pensávamos. Nós éramos a sua platéia naquela tarde de sábado. Eles montaram os equipamentos e começaram a tocar e cantar suas músicas autorais de língua inglesa. Um estilo único, particular. Uma personalidade artística bem definida. Um timbre rasgado, forte. Um trabalho bem feito, podes crer! Eu poderia, muito bem, me casar com o brother barbudo de tatuagem de cruz no pescoço (brincadeirinha! Mentira, eu poderia sim. Brincadeirinha!). Eu termino este conto dizendo que aquele dia valeu a pena por causa da música deles (e por causa de sua beleza, também. Brincadeirinha!).

Eu vou deixar as redes deles, aqui, para vocês conhecerem, tá?
Instagram: @coltbrothersoficial
Fanpage: facebook.com/coltbrothersoficial

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s