Reencontre-se

Paulista, 31 de janeiro de 2018

Pai,

Tenho procurado estar atenta a tudo o que me faz mal. Percebo que, quanto mais madura, mais clara é a revelação de que meu maior inimigo mora dentro de mim. Por muito tempo, estive com a atenção voltada para os problemas externos achando que, resolvendo-os, dentro ou fora de mim, aquilo estaria aniquilado. No entanto, eu descobri que não se trata dos problemas, trata-se da razão pela qual eles vêm e retornam: para me lembrar de que existe um problema interno, o qual eu preciso enfrentar sozinha, mais cedo ou mais tarde.

Percebo que a raiz de muitas desavenças e nós interiores mora na ansiedade. Ao trazer sintomas físicos de difícil controle, é como se as crises dessem a impressão de que o eu não controla o corpo. Contudo, não é só isso. Qualquer mínimo grau de ansiedade ajuda as pessoas a pensar negativo como uma forma de proteção, diante de algum resultado.

Na realidade, usar a força da mente para pensar em algo negativo é uma forma de auto sabotagem.

A ansiedade é obscura, deixa as pessoas inseguras. De repente, na espera por um futuro que, ainda, não chegou, as pessoas questionam-se por sua capacidade e por seu merecimento. Todo o mundo merece ser feliz, mas a insegurança não deixa as pessoas acreditarem nisso. É um estado contrário à liberdade porque as pessoas vivem se preparando para evitar esses sintomas e, ao senti-los, é como se quisessem ter o controle sobre o objeto externo que rondam seus pensamentos. E liberdade é deixar solto, é fazer um movimento de um lado e aguardar de outro, é permitir-se confiar em algo maior que mora dentro de cada pessoa e que se conecta com algo maior ainda, que faz o universo fazer sentido. Confiar, diante de um sentimento como a ansiedade, parece a atitude mais difícil de todas.

A ansiedade faz as pessoas terem medo do futuro baseadas nas experiências que tiveram no passado. Por isso, é uma prisão. É difícil perceber que, quando uma nova realidade aponta, milhões de pré-julgamentos não a deixam chegar. É como se o novo fosse rotulado de velho conhecido indesejável. Então, perde-se a experiência de observar e conhecer.

O medo é uma prisão sem grades. Está suportado num caminho imaginário onde supõe-se que não existirá dor. Medo é controle. Medo é ausência de aventura. Medo é a ausência do eu.

Uma vez, quando fechei matrícula na universidade particular com direito a uma boa bolsa, você perdeu o emprego. As pessoas com as quais convivi por toda a vida ficaram desesperadas e começaram a maldizê-la. Eu, também, fiquei com medo e não conseguia ver saída. Mas você se manteve calmo. Naquele momento, você me disse: “Se perdeu um emprego, aqui, amanhã arrumamos outro. Se perdeu qualquer bem material, hoje, amanhã a gente trabalha e reconstrói. Não há motivo para desespero. O importante é ter saúde”. Eu nunca esqueci aquela cena. Quanto mais, posteriormente, aprendi sobre a vida, lembrei-me dela. É o exemplo mais claro que tenho do que seja ter confiança e do que seja valorizar o que, realmente, importa.

Bens materiais vêm e vão. Bens materiais são o reflexo e a consequência do relacionamento construído, interiormente, consigo.

Tenho tentado, pai, encontrar o equilíbrio entre o silêncio e o movimento. Tenho tentado não parar, não desistir de mim. Tenho insistido em encontrar aquele estado da mente que está em paz, mas também está focado no movimento da mudança. Tenho tentado respirar e dizer pra mim que está tudo bem, independente do que seja preciso acontecer. Tenho tentado expulsar hospedeiros indesejados travestidos de pensamentos negativos. Tenho tentado negá-los. Ao menos, parei para decidir que fazer tudo isso é o melhor, ainda que eu tente lembrar de tudo e, por vezes, não consiga.

Tenho orado… Nas orações, peço flexibilidade. Tento dizer para o meu ego medroso que não sou conhecedora do meu destino, que não sei os caminhos que podem me levar a alcançar e abraçar os meus sonhos, que eu não posso controlar, ainda que queira. Tenho tentado pensar que tudo de bom pode acontecer a qualquer momento, que um mundo de múltiplas possibilidades existe ao meu redor e que tudo está pronto para acontecer no momento certo. É difícil persistir diante de um não da vida… É difícil continuar com o mesmo gás… Mas pensar assim faz com que eu entenda que eu faço parte de algo muito maior e não tenho a obrigação nem a condição de saber de tudo.

Tenho buscado aceitar as pessoas. Dar liberdade a elas, também, para serem o que são e o que querem ser. Quando a mágoa invade, isso se transforma num desafio e tanto. Mas, na busca pelo silêncio interior, tenho escolhido e insistido em não julgar, ainda que seja uma tarefa muito difícil. Silenciar e observar, às vezes, é a resposta para muitas situações. Tenho pedido para ouvir. Quero estar próxima do meu coração. Quero arriscar segundo o que a pequena e doce voz que fala dentro de mim. Quero merecer as melhores intuições. Quero mudar, pai… Compreendo que tentar algo diferente pode mudar a ocorrência das mesmas coisas.

Conto com o teu olhar sobre mim, a tua torcida, o teu amor. Se a saudade não existisse, você estaria aqui, quem sabe, a me ouvir sobre todas essas questões. Não me importa mais ir pelo caminho certo (o que seria maravilhoso), me importa, antes de tudo, mudar de lugar e descobrir algo novo. Quem sabe me reencontrar.

Com amor e saudade,
Clara.

2 Comments

  1. Lindo e muito emocionante o seu texto!❤
    São palavras vindas do coração. Tenho certeza que seu pai está no céu muito orgulhoso da mulher que você se transformou.
    Feliz dia dos pais para seu Ricardo!
    Beijos pra você! 😙😘❤

    Curtido por 1 pessoa

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