Continua sendo Deus

Se Deus fizer, Ele é Deus. Se não fizer, Ele é Deus. Se a porta abrir, Ele é Deus. Mas se fechar, continua sendo Deus.

Ela cantava enquanto os maqueiros a levavam para a sala de cirurgia. Olhava para o teto, via o passar das lâmpadas, sentia o momento que mais temia se aproximar, mas cantava. Como se fosse a última vez, como se fosse a última chance. A voz tremia, as lágrimas caíam e molhavam o lençol.
– Ela canta, é?, perguntou um dos maqueiros.
Rapidamente, a mãe dela se aproxima, chorando, e responde:
– Sim, ela é cantora.
Pensou no quanto era deprimente precisar chegar a uma situação de risco para ver a mãe admitindo a profissão que ela havia escolhido para si. Mas pensou também que, se mesmo com a voz trêmula, alguém desconfiou de que ela cantava, é porque ela cantava, mesmo. Pensou no quanto era deprimente vestir uma bata verde como aquela e envolver seus cabelos e pés com aquelas touquinhas. Pela primeira vez, também, havia depilado tudo o que chamava de “checa” porque ia ficar pelada na frente de um monte de gente.

Se a doença vier, Ele é Deus. Se curado for, Ele é Deus. Se tudo der certo, Ele é Deus. Mas se não der…

Não conseguia continuar a música. Tinha medo de que não desse certo. Lembrou de todos aqueles meses de sofrimento, de todos os pressentimentos de que algo de inusitado a poderia levar daqui. Mas, também, lembrou das orações, dos pedidos, da fé. Pedia perdão a Deus porque o medo a estava vencendo.
– Será que ela está tendo reação a algum medicamento, doutora?, pergunta a enfermeira.
Com entonação confiante, como quem sabe que tudo vai dar certo, a anestesista responde:
– Nada, ela nem entrou, ainda. Isso é medo.
– É sua primeira cirurgia?, pergunta a enfermeira segurando a maca.
– Sim, responde ela bem baixinho.
Imediatamente, a enfermeira enxuga suas lágrimas e acaricia seu rosto.
– Não te preocupes. Vai dar tudo certo.
Ela sabia que aquele era o primeiro sinal do cuidado pedido a Deus. Na sala, a agressão de precisar ser despida e anestesiada foi amenizada pelo carinho daquela equipe, que era profissional. Ao sinal avisado a respeito da primeira dose de anestesia, fecha os olhos e, antes de prender a respiração e ficar imóvel para levar a picada, termina a música.

Continua sendo Deus.

Somente, ali, conseguiu fazer o que ansiou por tantos meses: entregar. A hora havia chegado e ela pediu para não ver, não ouvir, não saber. Muito se fala sobre essa coisa de entregar situações, entregar pessoas, entregar sentimentos a um poder ou uma força maior. Ela sabia o que era aquilo, ela havia vivido experiências de entrega, ela lembrava do sentimento. Mas parecia muito difícil voltar àquele estado de confiança diante de um medo diferente. No entanto, era o que ela mais queria. Conseguiu. Tanto pediu que alcançou. Agora, sim, estava tudo nas mãos de Deus. Nada mais poderia ser feito.

Um breve instante e percebeu uma cortina azul em sua frente. Vozes distantes de enfermeiros e médicos pareciam falar sobre séries e filmes americanos. “Está acontecendo e eu estou acordada”, pensou.
– Por favor, eu quero dormir, disse em voz alta.
– Ela quer dormir, doutora, diz uma enfermeira em tom cômico.
Em poucos minutos, seu médico se aproxima.
– Tá tudo bem, só faltam os pontos. Vai poder ter quantos meninos quiser. E sai da sala.
Ela ri de nervoso. Percebe que, na verdade, estava acordando de um sono de cerca de uma hora. Conversa com os enfermeiros. Olha aquilo que saiu de dentro dela. Sente alívio. Parece que a saúde está a salvo. Parece que vai ficar. Parece que Deus ouviu e atendeu. “Como fui tola de sofrer e duvidar”, pensava.

Ao ser retirada da sala, vê sua mãe chorando e repetindo: “Jesus te ama”. A caminho da sala de observação, tenta refletir sobre essa coisa de entregar. Parece que entregar é dar o seu melhor e esperar que a melhor escolha será pautada para o seu destino, seja ela qual for. Seja o que for, entregar é aproveitar a vida, o tempo, o que pode ser feito sem esperas desnecessárias, sem gastos energéticos desnecessários. No entanto, toda experiência, ainda que sofrida, solidifica um aprendizado. Então, vale a pena.

Agora, ela gostaria de fazer tudo o que sentiu falta de ter feito quando achou que não haveria mais tempo. Sabia que não deixaria de ter medo. Mas sabia também que, como diz a letra da música: “haja o que houver, sempre será Deus”.

*Deus é Deus é uma música de Delino Marçal.

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