Pai, são 10 anos sem você.

Paulista, 13 de dezembro de 2017

Eu era uma menina e dependia de você pra tudo. Ainda recém-chegada na maioridade, lembro que meu mundo girava em torno de você. Depois que você partiu, era como se eu não tivesse mais sonhos porque todos os sonhos partiram com você. Eu queria me formar pra te mostrar o diploma, eu queria me casar pra você entrar comigo na igreja de braços dados, eu queria ter boas condições financeiras pra te causar orgulho, pra poder te dar uma vida melhor. Você era (e é) o meu herói e eu dependia, completamente, da admiração, do cuidado e do amor que você me fornecia. Não pense que, ao décimo ano de tua partida, eu deixei de sentir falta de ouvir tua voz dizendo “filha, eu te amo, tá?”, “amôor, eu te amo, tá?”, papai tá indo, eu te amo”. Todos os dias, eu ouvia a pessoa que eu mais amava, no mundo, me dizer “eu te amo”. Por muitas e muitas vezes, me culpei pelas vezes em que sentia que era excessivo mas nunca, pai, duvidei da veracidade do seu amor. Era um amor em que eu podia confiar e me aninhar.

Depois de seis meses, criei coragem pra falar com você, pela primeira vez, depois que você me deixou. E foi escrevendo, como faço agora e passei a fazer pelos dez anos seguintes. Ao escrever, pude me encontrar em muitos pontos. Então, decidi, firmemente, que não te transformaria no motivo da minha morte mas na minha razão de viver. E fomos lá eu e todas as Claras que existem em mim te fazer presente em cada nova vivência, buscando a força nesse DNA que nos une, procurando continuar te proporcionando o sentimento de orgulho porque a tua filha não suportava (e nem suporta) a ideia de que teus olhos não pousam mais sobre ela. Eu te fiz e te faço vivo em todos os momentos em que sei que a tua presença é crucial. Não pense que ao décimo ano de tua partida tornou-se mais fácil não ter um pai presente em matéria.

E no imenso vazio que ficou não ver, não ouvir e não abraçar aquele amor e aquele suporte todo que não me faltava, eu procurei você em outras pessoas. Eu sofri um bocado. Eu pirei um bocado. Eu superei um bocado. Eu aprendi um bocado. Também, fui feliz mais um bocado. Recentemente, eu ouvi a Alexandra (Solnado) dizer, na internet, que “se o que te faz arder está do lado de fora, a vida vai ter que te tirar. Somente assim, poderás descobrir a tua lenha interior”. Por muito tempo, carreguei, dentro de mim, uma reflexão certa e rígida de que tua partida tinha um propósito e que eu o havia descoberto. Pensava que a partir da tua ausência, eu cresci forçadamente aprendendo um monte de coisas necessárias sobre como domar a mim mesma, como entender meus motivos, como enfrentar meus monstros, como alcançar meus objetivos. Mas a verdade é que eu demorei dez anos pra descobrir que é muito mais que isso, pai. Talvez, muito mais do que eu consiga escrever.

Você partiu e me obrigou a entender que o centro da minha vida não pode estar fora de mim, não pode morar em outra pessoa. Eu, simplesmente, não poderia deixar de entender que meu subconsciente queria substituir o insubstituível pra que aquela dor doesse menos. No entanto, muito mais honesta e muito mais assertiva estarei sendo eu comigo mesma se aceitar a dor, deixá-la doer e tentar seguir em frente, mesmo assim. Porque a vida tem beleza, apesar do sofrimento. E porque o sofrimento é meu, faz parte de quem eu sou, e somente eu posso arrumar uma forma de lidar com ele.

Eu me reinventei. Reinventei meus sonhos e sinto que estou prestes a me reinventar, novamente, às custas de muita coragem pra enrugar a pele da minha face e chorar, porque agora eu sei que tudo bem errar. E se nas decisões de antes me senti mais próxima de quem eu sou, agora eu quero estar plenamente centrada em mim. Eu entendi que não posso descuidar desse jardim interior, dessas cores do meu ser, desse mundo que me pertence. Não posso deixar de me dar tudo o que, um dia, desejei receber, principalmente, porque eu quero ser capaz de oferecer esses presentes silenciosos que trazem abundância e felicidade para a vida das pessoas. E, por mais cliché que seja dizer isso, como posso dar o que anda tão devastado? Eu entendi, que não posso ser negligente com tantas Claras interiores que precisam de mim. Eu preciso de mim. Eu preciso me abastecer de mim. Eu preciso me dar amor.

E escrevendo isso, penso na coragem e no medo de me expor. O medo tem sido uma constante. Ao pensar em medo, lembro de Flaira (Ferro) que, uma vez, escreveu: “mas se eu não tiver coragem pra enfrentar os meus defeitos, de que forma, de que jeito eu vou me curar de mim?”. Ao pensar num ano tão difícil com tantas provações, com tantos motivos pra jogar a toalha, onde toda mudança e todo crescimento, somente eu posso ver, penso na necessidade absurda e desnecessária de querer provar algo pra alguém que não seja eu mesma. Pai, eu quero que você saiba: minha oração pede pra que a minha segurança se apóie na minha capacidade de ser, completamente, quem eu sou em essência; minha oração pede respeito por todas as pessoas, sem julgamentos e com liberdade; minha oração pede pra que o amor seja verdadeiro e motivo de bem-estar; minha oração pede pela entrega dos medos que paralisam; minha oração pede movimento, luta e fé.

Eu estou comprometida com isso e te digo, pai: eu quero viver. Eu quero ter tempo de fazer mais momentos valerem a pena, quero os pés fincados na realidade presente e a cabeça projetando tudo o que eu for capaz de realizar. Quero ter a oportunidade de sentir as pernas tremerem mas, respirando fundo, escolher que elas vão caminhar. Eu te prometo que vou aprender porque eu sou tua filha. E porque você vive, pai. Você vive em mim.

Com amor e saudade,

Clara.

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