Sabe o destino? Ele se cumpre

Eu comecei a cantar em 2007 na Capela Cristo Missionário, aqui do bairro onde moro. Meu pai estava morrendo. Eu precisava me apegar em algo antes de me sentir, completamente, só para enfrentar aquela dor cuja chegada eu já pressentia. De maneira concomitante, iniciei uma trajetória cantante nas missas da Universidade Católica de Pernambuco, onde eu estudava. Fiz vários amigos na Pastoral da Universidade. Fiz muitos outros na igreja do meu bairro, também. Amigos de uma vida e para uma vida.

A igreja me ensinou muito sobre ter confiança, especialmente, quando está muito claro que não se tem o controle sobre as situações. A igreja foi a coisa mais certa quando meu pai partiu. Eu fecho os olhos e lembro dos meus amigos ao meu redor e aquilo era tudo o que eu precisava. Carrego em mim, sempre, essa relação de amor construída, refletida e vivida com um Deus que eu nem conhecia e nem conheço, mas faço questão de buscar dentro de mim, todos os dias.

Para me sentir mais próxima do meu pai, que era músico autodidata, foi que eu comecei a estudar Música. Quando eu vou cantar e tocar violão, eu fecho os olhos e me lembro do teclado montado na varanda da minha casa. Eu, tímida, me aproximava e pedia pra cantar. Painho aprendia acordes de músicas gravadas por Sandy e Júnior e Los Hermanos só pra me agradar. Em seguida, ele me pedia pra aprender o repertório de Gal Costa, Caetano, Roberto e, assim, seguia-se a troca. Eu fecho os olhos e lembro de meu pai na sala de minha casa, encostado no sofá, tocando violão e cantando. Ali, compusemos nossa primeira e única música.

Estudar transformou-se num refúgio e, também, num porto seguro para as minhas emoções. Eu me escondi atrás da vida acadêmica. Por mais que eu não quisesse, estava lá dando a ré para chegar no mercado profissional. Aprender a cantar é coisa de gente muito corajosa. Cantar é se expor. No meu caso, aprender a cantar foi destruir uma casa interior montada pra aprender a montar outra. Eu aprendi mas, nem sempre consigo mostrá-la. Essas coisas foram me afetando com o passar do tempo. A opinião de quem não gosta do que ouve foi ficando, apesar de eu saber que tem quem goste, também. Às vezes, isso bateu de maneira mais profunda, agora nem tanto.

Porque, agora, a vida está de cabeça pra baixo, as prioridades mudaram e eu não sei pra onde foram alguns sonhos, alguns projetos, algumas metas. Olho ao meu redor e vejo dificuldades que me abalam. No meio de uma parada na técnica vocal misturada com uma turbulência, foi como se Deus, no susto, me chamasse pra cantar, dizendo: Vai, menina. Eu quis correr, lógico! “Senhor, chame outra pessoa, meu véi. O Senhor não tá vendo como tá essa voz? Não tá vendo como tá essa cabeça? E esse coração? Me chame, não, pai”. Mas, dessa vez, Deus foi teimoso, Ele insistiu, Ele sabe que não me criou pra ser covarde. Ele sabia que eu ia encarar.

Exatos dez anos após aquela pirraia começar a cantar toda desengonçada naquela capela, ela assume seu primeiro compromisso profissional com a Música. E foi pra Ele, bicho. Foi pra Ele que eu cantei. Por Ele comecei a cantar, com Ele prestei o primeiro serviço profissional de cantora da minha vida. Foi como voltar no tempo: depois de tantos anos estudando, até medo de entrar no tom errado deu. Era como se eu, ainda, fosse aquela menina de aparelho na boca e sorriso largo. Mas era, também, como se a mulher que sou hoje estivesse dando a mão pra ela e dizendo: bora, tô aqui, a gente consegue. A oportunidade do jeito que surgiu e, agora, a experiência do que vivi depois disso me dizem que, independente de quem ache feio ou bonito, o que mais me impulsiona a cantar é a necessidade. É como respirar, é como escrever. Eu preciso. Cantar me preenche. Não, é mais que isso. Cantar me alimenta. Não, é mais que isso. Cantar me liberta. Não. É mais que isso. Cantar me cura.

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