Porque hoje é Dia dos Pais

Paulista, 13 de agosto de 2017

Pai,

Aqui, é Dia dos Pais. Já faz um tempo que esta data não é, para mim, motivo de comemoração. Deveria ser. Eu tive o melhor pai do mundo. Mas é uma data que me faz lembrar da saudade, a saudade de ter vivido uma porção de coisas ao teu lado, a saudade de memorizar tuas expressões, a saudade de dizer que eu te amo…

Faz tempo, não é, pai? Para te ser sincera, ando fugindo dessa coisa de aniversário, dessa coisa de data comemorativa, dessa coisa de expor minha mente a um tanto mais de sofrimento. Tenho fugido de sofrer imaginando como minha vida poderia ter sido. Tenho tentado respeitar o tempo. Eu me permiti anestesiar… Desfocar faz bem, às vezes. Tipo agora, estou arrodeando para te contar umas coisas que andei pensando, tentando justificar minha fuga de falar com você, nesses últimos tempos. Falar com você meio que doeria se fosse pra eu te dizer que andei tendo fraquezas (normal, não é?). Eu sei que você entenderia, mas eu te prometi que eu ia ser forte, que eu ia aguentar, que você poderia ficar tranquilo, eu iria dar conta de tudo. Eu juro que, todos os dias, eu penso em você e arrumo um motivo para recomeçar.

Pai, já me disseram que a vida é feita de encontros e desencontros mas eu acho que a gente nunca consegue falar ou escrever sobre alguma coisa que não tenhamos vivido ou sentido. Eis que a filosofia do significado de um desencontro está se enraizando, em mim. Estou descobrindo que os desencontros são necessários. É necessário desapegar. Dói, também. Em meio a tanta carência afetiva, eu cresci querendo agregar pessoas, conquistar amizades, tê-las perto de mim.

Eu não sabia que aceitar o outro como ele é ou lidar com as expectativas de outrém era tão difícil…

Sabe, estou descobrindo que a gente se aproxima muito de quem mais se aproxima das nossas necessidades. Isso me faz refletir sobre que tipo de necessidade eu tenho para com as pessoas, que tipo de pessoa eu necessito perto de mim, por quê eu necessito e que necessidade, dentre essas, eu seria capaz de suprir sozinha.

Eu descobri que, na grande maioria das vezes, desentender-se com alguém é, na realidade, não suportar as próprias carências gritando dentro do ser implorando pela adequação do outro.

Estar entregue a alguém, em amor ou amizade, é entregar, nas mãos desse alguém, as próprias fraquezas. Amar alguém é desnudar a alma, permitir que alguém lhe descubra e que tenha poder sobre você. Acho que a gente não faz noção de como é, para o outro, viver tudo isso. Eu fico pasma de pensar que todos vivemos essas questões de maneiras singulares e, portanto, diferentes. Imagine como é conviver com mundos tão diversos. Imagine a responsabilidade de mergulhar no universo de alguém… Acho que a quebra de um sentimento implica a quebra do relacionamento. Sinto que as quebras são necessárias para o crescimento mas acho maluco entender.

Em primeira instância, minha memória me lembra que uma quebra pode causar um fechamento de coração. Pessoas que se doaram, arriscaram, apostaram e sofreram fazem, agora, o possível para se proteger. É o instinto da defesa. É orgânico. Mas, olhando pelo ângulo dos encontros, cuja probabilidade não chega a se aproximar da dos desencontros, um coração fechado pode estar anulando futuras possibilidades de ser feliz por meio da precipitação. Se eu pensar mais a fundo, uma quebra é a sucessão de várias tentativas… Vem da decisão sobre que tipo de pessoa queremos ser e que tipo de pessoa queremos ter. Não é fácil explicar esse momento quando ele ocorre.

Imagine não fazer mais parte dos anseios de uma pessoa que, antes, era tão próxima e não entender como isso se sucedeu… Imagine não querer mais proximidade com alguém que representa uma ligação com padrões de comportamento negativos e não saber, ou mesmo, não querer explicar. É possível saber da solidez de uma quebra quando ela acontece assim: silenciosa. Junto com o silêncio, uma explicação e um crescimento que não se traduz em palavras. A gente só sabe que foi necessário quebrar, foi necessário perder. Uma vez quebrado, tudo bem recomeçar, tudo bem arriscar e errar quando se tentou de tudo o que se achava correto para aquele momento.

Tenho pensado no cuidado de envolver pessoas nas minhas expectativas. Tenho pensado no cuidado de estar nas expectativas de alguém. Isso deve ser o reflexo do novo: novas aprendizagens, vida seguindo. Perder alguém não é fácil, ainda que necessário.

Eu te perdi quando menos quis e quando mais precisei de ti. Lembro que me achava muito pequena para enfrentar um mundo tão grande. Ansiava por tua proteção. Tua perda me fez crescer, me obrigou a ter coragem. Eu entendo que tinha que ser assim ainda que desejasse que fosse diferente. Não ter um pai para abraçar, no Dia dos Pais, é não ter uma pessoa que conseguia ler minha alma, do meu lado. Mas, ainda assim, é ter uma estrela, no céu, olhando pra mim.

Da tua pintassilga, com amor,

Clara.

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